Saturday, February 14, 2009

Crônica de Ullisses Salles sobre o caso da advogada Paula Oliveira

Excelente texto sobre o caso da advogada Paula, para reflexão.

http://66.228.120.252/cronicas/1436865

O ataque à brasileira em Zurique virou ferramenta política.
O uso político das desgraças humanas é algo inerente da sociedade brasileira. Eu poderia mencionar vários ocorridos nos últimos 4 ou 5 anos, mas não o farei em respeito às famílias que alheias a tudo isso ainda sentem as perdas dos seus parentes queridos. Mas infelizmente em nosso país não importa qual seja a tragédia, grupos políticos desfrutam ao máximo esse tipo de acontecimento em prol de promoção pessoal; quem sabe assim ganham um pouco de notoriedade, aparecem na TV e na internet?

Por falar em internet, o internauta brasileiro usa o tema para se promover criando comunidades de pseudo-solidariedade, como se isso resolvesse alguma coisa. A polícia local (na maioria das vezes assustadoramente despreparada), usa para “mostrar serviço”. Os fundamentalistas partidários usam a desgraça outrem como ferramenta de debate politiqueiro com foco apenas na propaganda.

O último caso que causou furor na imprensa brasileira e logo se tornou vitrine política, (falaremos disso mais adiante), foi provável ataque sofrido por uma brasileira na cidade de Dübendorf, região metropolitana de Zurique. Eu digo provável porque não trabalho na polícia, não fui testemunha ocular e prefiro aguardar os resultados das investigações. Não que eu duvide que o acontecimento seja possível, afinal de contas extremistas xenófobos existem no mundo inteiro, principalmente no Brasil, onde nordestinos e negros são espancados no sul e sudeste do país, mas prefiro ser cauteloso diante da gravidade do fato.

O que me impressiona é ler na imprensa que o o Ministro das Relações exteriores Celso Amorim ter-se dado ao ridículo papel de convocar o Embaixador suíço no Brasil para debater o tema, transformando um caso típico de agressão urbana (xenófoba ou não), em incidente diplomático. Pode parecer mesquinho da minha parte, mas qual é a verdadeira razão dessa manobra? Passar a imagem de um Brasil preocupado com os direitos humanos? Logo o Brasil, onde o trabalho escravo é mantido até hoje por políticos em suas fazendas sob as barbas de todas as autoridades e da sociedade inerte e na total ausência de punições?

Ou estaria o governo brasileiro preocupado com a indiscutível xenofobia existente na Europa? Se assim for, é muito nobre, mas mais uma vez destoa completamente do quadro que temos no Brasil onde negros e nordestinos são tratados como sub-raça no sul e no sudeste do país. Eu como cidadão nascido em PE e criado na BA sei muito bem do que estou falando e de todas a piadinhas que fui obrigado a engolir em SP, RJ e PR. Eu já disse em ocasiões anteriores que a sociedade brasileira é a mais racista, xenófoba e intolerante que conheci. Não acredito que mudarei de opinião tão cedo.

Na região da Langstrasse, onde vivem e trabalham dezenas de prostitutas brasileiras, acontecem agressões todas as semanas, me lembro do caso de uma compatriota ter sido espancada e jogada pela janela do primeiro andar de um prédio caindo sobre um carro se estava estacionado abaixo, (ela sobreviveu). Porque Celso Amorim não correu em seu socorro? Porque ela era uma prostituta? Porque ela era negra e de origem humilde? Se ela fosse uma Advogada branca o caso certamente teria sido tratado de maneira diferente pelas autoridades brasileiras tão humanas e preocupadas com a xenofobia e o bem-estar dos brasileiros brancos e com diploma universitário; do contrário... bem, do contrário já sabemos como é nosso sistema carcerário em ambos os casos.

Mais uma vez a mídia e as autoridades brasileiras transformaram um drama humano em um teatro em busca de audiência e auto-promoção, quando a meu ver, deveria ter aprendido dos tantos erros do passado e agir de maneira sóbria e profissional cooperando entre si para que o caso seja esclarecido e não apenas explorado comercialmente; (entrevista exclusiva, vendagens de jornais, anúncios em sites e auto-promoção).

Em tempo; moro na Suíça há 18 anos, em Zurique desde o ano 2000. Trata-se de uma linda cidade que goza de uma qualidade de vida excelente, e que apesar da crescente criminalidade, está anos-luz distante da guerra civil que temos no Brasil. Quanto ao caso da suposta agressão, espero que a polícia local seja competente e ágil no esclarecimento do mesmo e que puna os agressores se assim ficar provado.
Ullisses Salles
Publicado no Recanto das Letras em 13/02/2009

4 comments:

Anonymous said...

Olá Sandra,

Concordo totalmente com o Ullisses no seu ótimo artigo.
A situação internacional hoje de fato é bastante tensa, de lado a lado, com questões envolvendo crise econômica, desemprego e mercado de trabalho restrito, em que europeus sentem-se ameaçados em seus empregos por imigrantes, levando por vezes a manifestações xenofóbicas, que acredito ocorrerem em menor grau na Suiça. Ainda assim, existe a preocupação de se defender a imagem do país perante o mundo.
Como eu já havia comentado aqui, ao invés de se fazer estardalhaço e julgamentos apressados, seria conveniente apurar o que de fato aconteceu, e agora há indícios fortes ou, ao menos, suspeitas, de que tenha havido fraude, o que é péssimo para nós, brasileiros, porque como você mesma colocou, desmoralia quem defendeu a brasileira, e dificulta eventuais casos futuros de agressão que venham de fato a ocorrer.
Caso ela tenha de fato mentido, acho que isso não pode ser estendido à comunidade brasileiro, e ela tenha sérios problemas mentais. Digo isso, veja bem, se de fato houver ocorrido a autoflagelação.
De qualquer forma, houve por parte do governo brasileiro, por parte do presidente Lula e do chanceler Amorim, precipitação ao condenar o episódio sem aguardar esclarecimentos, o que é muito chato pra nós.
Abraços,
Sérgio

Anonymous said...

Envio a coluna de Clóvis Rossi que saiu hoje na "Folha de São Paulo" sobre o assunto hoje.

Abraço,

Sérgio



São Paulo, domingo, 15 de fevereiro de 2009

CLÓVIS ROSSI

Embaraço, nosso e deles
SÃO PAULO - Três ou quatro coisas que ainda é preciso dizer sobre o caso da brasileira Paula Oliveira, atacada ou automutilada nas imediações de Zurique:
1 - Se aceitei, precipitadamente, a versão dela sobre a agressão foi por absoluta falta de razões para duvidar. Afinal, ela não é clandestina nem tem ficha policial nem antecedentes comprometedores. Para que inventaria a história?
2 - Mesmo que tenha se automutilado, não há razões para, ao contrário do que diz certa mídia suíça, o país ficar ofendido pelas críticas à xenofobia. O Partido do Povo Suíço e seu líder, Christoph Blocher, são um embaraço para boa parte do establishment político local, exatamente pela xenofobia. Blocher é da mesmíssima família política de outros líderes da extrema-direita, como o francês Jean-Marie Le Pen e o austríaco Jörg Haider, recentemente morto, para não falar da Liga Norte italiana. O embaraço é tamanho que a União Europeia chegou a impor sanções à Áustria quando o partido de Haider entrou para a coalizão governante. Portanto, a hipótese de um atentado racista era verossímil. Nem seria o primeiro, aliás.
3 - Mas, se a versão da polícia for a verdadeira, só vai reforçar a desconfiança com que os brasileiros são vistos em parte da opinião pública europeia. Por mais que a maioria se mate de trabalhar, clandestinos ou não, os escândalos provocados por uma minoria de vigaristas contaminam todos, a ponto de ter ouvido, uma vez, de uma brasileira residente em Portugal, que todas as brasileiras são tratadas como prostitutas.
4 - Presidente da República e chanceler não deveriam tratar publicamente de assuntos policiais, menos ainda antes de ter todas as informações. Devem, sim, criar as condições para a proteção de brasileiros, em vez de comentar os episódios que os envolvam.

crossi@uol.com.br

Sandra Mezzalira Gomes said...

Obrigada pelo texto Sérgio, muito bom.
Como já disseram, qualquer que seja a verdade, a história é trágica e lamentável.
E de qualquer forma abalou o bom relacionamento que o Brasil tinha com a Suíça.
Particularmente só gostaria que a verdade viesse o mais rápido possível já que fica este "suspense" horrível no ar.

Uma coisa não entendo, a barriga dela! Se ela não estava grávida, quem explica aquela barriga? Por outro lado, onde ficaram os "fetos abortados", no banheiro? São tantas perguntas em aberto...

Um abraço

Odair Moraes said...

Sandra,

sei que daqui a pouco não se falará mais nisso. Só para constar, uma opinião de alguém da área do Direito, com a qual concordo e já havia pensado sobre isso:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u504285.shtml

Divulgação de laudo médico de brasileira na Suíça é irresponsável, diz professor da PUC


da Folha Online

O professor de Direito Constitucional da PUC-SP, Pedro Estevam Serrano, avalia que o Instituto de Medicina Forense da Universidade de Zurique, na Suíça, errou da divulgação do laudo médico sobre o caso da advogada brasileira Paula Oliveira, 26. Ele aconselha ainda que as autoridades brasileiras contratem peritos particulares para examinar a pernambucana e garantir equilíbrio e transparência nas investigações.

Paula afirma ter sido atacada por três skinheads, na última segunda-feira (9), em uma estação de trem nos arredores de Zurique. Devido aos chutes e agressões com estilete contra seu corpo--onde os criminosos teriam desenhado símbolos nazistas--, a brasileira afirma ter sofrido um aborto no banheiro.

A polícia de Zurique informou na última sexta-feira (13) que exames médicos realizados pelo Instituto de Medicina Forense comprovaram que ela não estava grávida no momento da agressão que teria sofrido na estação de trem.

Para o professor de Direito da PUC, o instituto suíço cometeu pelo menos "três graves erros" ao divulgar o parecer à imprensa. "Feriram o sigilo médico, que só pode ser quebrado por razões sociais", explica o professor.

Há também contradições na conduta das autoridades suíças, conforme Serrano. "Se a própria polícia suíça decretou sigilo no caso, o instituto não poderia tornar públicos os laudos médicos que são parte da investigação. Eles nunca poderiam ter dado entrevistas antes da conclusão da investigação".

Serrano também critica a precipitação do Instituto na divulgação de dados, antes de um psiquiatra avaliar a brasileira. "Emitiram opinião antes mesmo de terminar as diligências médicas e psiquiátricas. Não poderiam ter tirado conclusões antes que um psiquiatra a atendesse, pois a mulher está em estado de choque".

Para o professor da PUC, as autoridades brasileiras na Suíça deveriam contratar peritos particulares para examinar Paula e garantir que haja equilíbrio e transparência nas investigações. "É preciso que se faça um laudo imparcial para tirar essa impressão de armação contra uma brasileira na Suíça", afirma Pedro Serrano.

A advogada brasileira pode ser indiciada criminalmente se for comprovada tentativa de farsa, segundo o comandante-geral da polícia de Zurique, na Suíça, Phillip Hotzenkocherie, em reportagem do "Jornal Nacional", da TV Globo.

O pai da pernambucana, Paulo Oliveira, afirmou, segundo reportagem da Folha deste domingo, que o estado psicológico da filha é "grave e se tornou mais preocupante". Oliveira disse que Paula não sabe que a polícia suíça desmentiu sua versão e suspeita que ela mesma provocou os ferimentos em seu corpo.

Um dia após ter afirmado que acredita na versão da filha, Paulo fez ontem a primeira concessão em relação às suspeitas da polícia suíça.

"Em qualquer circunstância, a minha filha é vítima", disse ele. "Ou é vítima de graves distúrbios psicológicos ou da agressão, que desde o início ela sustenta e [de que] não tenho motivos ainda para duvidar."

Paulo disse que não tem exames que comprovem a gravidez da filha. "Como eu não morava com ela e nem moro, não sei onde estão os documentos", disse o advogado. "Tudo o que tenho são as informações que ela transmitiu antes que esta tragédia se iniciasse."